Janela,silêncio
Via a borboleta, tão linda de asas transparentes que pareciam vidro, não, na verdade pareciam pequenos pedacinhos de vidro, não, vejo de perto, cada vez mais perto, constato e me certifico, são pequenos pedacinhos mesmo, foram colados ou apenas alinhados com as mãos, moldados certamente no instante em que soprava aquele vento cortante, o mesmo que entrava pela janela, esquecida aberta, no meio daquela tarde. E do medo de que os pedacinhos fossem dispersos, surgiu a nova forma, tão ou mais frágil que antes... não conseguia segurá-la, não poderia retê-la com as mãos e por isto, apenas por isto, fechei a janela...separados pelo vidro, de um lado meu olhar, meu desejo e minha vontade e do outro ela, a borboleta de vidro quebrado, mais uma vez separados pelo vidro e pelo medo. Pensei, ela sairá logo da minha janela imaginária, se ao menos sentisse um calor insuportável que justificasse a abertura , mas ela lá, parada...meu medo não deixou que entrasse, receava que minhas mãos quebrassem a fina malha de vidro entrecortada por vida...imaginei o cheiro que teria, se seria suave ou áspera ao toque, se cálida ou fria, mas não permiti sua passagem. Ficamos imóveis, eu , ela , o vidro da janela, o ar, o tempo... aos poucos, bem devagar, aproximação furtiva com medo de que ela voasse, meus dedos percorriam suas asas, seu contorno preciso, me afasto e vejo minhas digitais no vidro e através dele ela, parada, imóvel... permanecemos assim... imóveis... então olhei através da dupla superfície, o vidro e suas asas, via a cidade naquele final de tarde, algumas esparsas luzes, a vontade de que fosse diferente... mas, receoso, mergulho na noite, mudo a direção do meu olhar e tento não pensar na imagem através do vidro... penso no seu corpo, de vidro... no meu medo concreto, na minha busca, rapidamente meus olhos buscam a sua claridade, continua lá, me certifico; Com alguma certeza vejo que ainda está lá, imóvel, e repetidas vezes refaço meu percurso, nesta noite me descubro vazio. olhar vazio, solidão, mesmo acompanhado por sua imagem... ilumino meu espaço com a vaga impressão de que sairá mas ela persiste... ela não tem medo da luz, da clara verdade, penso... admito sua imagem e o agora nosso limite, estabelecido, intransponível...

2 Comments:
Gosta de borboletas...olha quantas...http://www.youtube.com/watch?v=Xpnf4qNC_8s
Não resisti e vim reler esse texto, foi o meu preferido do plantão. Vou acompanhar os outros!
A bientôt,
Isabelle.
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